Friday, December 02, 2005

Vénus Urania

Quando das belezas inferiores nos elevamos através de uma bem entendida pedagogia amorosa, até a beleza suprema e perfeita, que começámos então a vislumbrar, chegamos quase ao fim, pois na estrada recta do amor, quer a sigamos sózinhos quer nela sejamos guiados por outrém, cumpre subir usando desses belos objectos visíveis como de degraus de uma escada: de um para dois, de dois para todos os belos corpos, dos belos corpos para as belas ocupações, destas aos belos conhecimentos - até que, de ciência em ciência, se eleve por fim o espírito à ciência das ciências que nada mais é do que o conhecimento da Beleza Absoluta.

Se alguma coisa dá valor à vida, caro Sócrates, (prosseguiu a estrangeira vinda de Mantinéia) essa é a contemplação da Beleza Absoluta.

(...)Que devemos pensar de um homem ao qual tivesse sido dado contemplar a beleza pura, simples, sem mistura, a beleza não revestida de carne, de cores, e de várias outras coisas mortais e sem valor - mas a Beleza Divina? Achas que não teria valor a vida daquele que elevasse seu olhar para ela e a contemplasse, e com ela vivesse em comunicação? Não te parece que vendo assim adequadamente o belo, esse homem seria o único a poder criar, não sobras de virtude, mas a verdadeira virtude, uma vez que se encontra em contacto com a verdade? Ora, para aquele que em si cria e alimenta a verdadeira virtude é que vão os favores e o amor dos deuses - e, se é dado ao homem tornar-se imortal, - ninguém mais do que esse o consegue".(...)

Banquete
Platão

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